Marrocos

Se você me perguntar o que eu achei do Marrocos, é isso aqui que eu vou dizer

Marrocos

Se você me perguntar o que eu achei do Marrocos, é isso aqui que eu vou dizer

A entropia é uma grandeza física que mede o grau de desordem de um sistema.
Interessante essa palavra, você não acha?
Desordem.

Fui atravessada por ela assim que pisei nas ruas de Marrakech. De primeira, me assustei com a quantidade de informações, acontecimentos, cheiros e… cores!
Que lugar colorido.

Em pouco tempo, a desconfiança foi embora, afinal, quem, se não uma latino-americana, para se sentir em casa no caos? 

Talvez eu sentisse falta

Tal qual o meu Saara na véspera de Natal.
Ou do Carnaval.

Ao mesmo tempo, encontrei certa paz no caminho longo e sinuoso pelas Montanhas do Atlas. A paisagem de infinitas distâncias infinitesimais entre Marrakesh e Merzouga não me deixa ficar enjoada ao olhar pela janela, mas me dá espaço suficiente para refletir sobre a vastidão desse planetinha. Quantas formas de viver. Como deve ser avistar o azul profundo quando só se viu terra rasa?

Uma das sensações mais fortes que tive durante a viagem foi no deserto. Ele me lembrou o Atacama e também as dunas tão presentes no Brasil.
Não tem jeito, eu aprendo e viajo por associação. Vejo o mundo pelos olhos do meu passado — o que já vi, vivi e senti —, tentando traduzir para o que conheço até me tornar fluente nesse novo idioma. E, depois, poder associá-lo com um outro e outro novo idioma.

As dunas do Saara prenderam minha atenção como o corpo dourado de uma mulher deitada contra a luz, ao mesmo tempo que a lua cheia dava bom dia ao sol que nascia.
Era como se eu estivesse no meio. 

No meio do quê?
Do infinito.

Ali eu completava 30 anos de idade, entre duas belezas da natureza: a lua e as curvas femininas.

O que, para mim, pode parecer um completo nada, um lugar cheio de ausências, para Jamal, o nosso guia, é tanto.
The Dades Valley: um oásis de tamareiras que cresce no meio da terra árida, mas, para além do nome gringo, esse é um lugar de esperança, comunidade e orgulho da cultura Amazigh. Pessoa livre. Onde Jamal aprendeu mais de três idiomas, a tocar guitarra e leva centenas de turistas para conhecer de forma tão íntima seu vilarejo.

A cidadezinha de casas construídas com argila e adobe passa despercebida aos olhos desatentos no horizonte. Parece até que querem se esconder, mas ali eu encontrei uma nova perspectiva, uma outra realidade. E me permito, então, adicionar mais essa ao meu hall de associações.

As pessoas no Marrocos são generosas. Toda viagem que faço, agradeço por aqueles que cruzaram meu caminho. Sinto reciprocidade e acredito que isso faça parte da sincronicidade de quem se permite estar em movimento: o Universo retribui de forma abundante.

E, em falar nele, é importante saber interpretar os seus sinais. Depois de muitas dificuldades para conseguir um transfer, uma previsão de tempestade e recomendações de desconhecidos aleatórios para que evitássemos a região, entendi que não deveríamos ir a Chefchaouen. Não fomos e passamos mais tempo em Fez, tempo suficiente para eu me sentir uma veterana em uma das cidades mais antigas do país.

Aliás, Fez abriga a mais antiga cidade medieval ainda habitada. E ela tem cheiros característicos: especiarias com sujeira. 

Brincar de se perder pelas ruas estreitas e labirínticas da medina de Fez parece uma boa ideia. Tudo aqui transpira tradição: as cerâmicas e mosaicos, o açougue de rua, os banhos hammam e o curtume.

Chouara Tanneries é forte em diferentes aspectos. O primeiro é inevitável, óbvio e esperado: o cheiro. Mas até isso me surpreendeu: não é proveniente das peças de couro cru expostas ao ar livre, e sim do excremento de pombo usado no processo de amaciamento.
Eu sei, quem iria imaginar?

O contraste do forte odor com a beleza instigante das cores vibrantes dos tanques de tingimento gera em mim um desconforto.
Um desconforto hipnotizante que não me faz querer ficar ali e tampouco me deixa ir embora.

No meio desse impasse, então, o terceiro ponto que teria potencial para desempatar a indecisão em que me encontro: os tanques são propriedades familiares, uma herança passada há mais de mil anos.
Uma profissão herdada de seus ancestrais para o resto da vida.

Minha espinha arrepia.
A perspectiva de nascer com o mesmo destino que meus antepassados, sem poder de escolha, me aterroriza.

Mas é preciso imaginar um cenário de sorte e não de fardo. A herança de trabalho no curtume mais antigo do mundo pode ser o orgulho de muitos.

Me vejo novamente presa, encarando os tanques coloridos e igualmente fedidos do Chouara Tanneries. Levo o ramo de hortelã fresco que seguro até o nariz: inspiro aliviada o seu cheiro.

Marrocos foi um baque, mais do que eu poderia imaginar ou já havia ouvido falar.

Eu quase vi o sorriso de satisfação dos comerciantes quando eu entrava no jogo da negociação para valer. As discussões se acirraram, o tom de voz subia e quando fechávamos a venda apertavam a minha mão “foi um prazer fazer negócio com você”.

Marrocos me fez entender o poder que temos, literalmente, na palma das mãos. A força do trabalho manual, o tanto que é possível criar, produzir e fazer acontecer. Sem atalhos.
Nós, seres humanos de verdade. 
Esse é o valor da autenticidade.

Por volta das 13h, as sirenes chamavam para o segundo salah: dezenas de pessoas se movimentavam até a mesquita mais próxima. Igualmente, dezenas de pares de sapatos espalhados nas entradas dos templos.

E, como não muçulmana, me limito a observar tudo por fora. Não por falta de interesse, eu não posso entrar na mesquita. Durante a saída da ala feminina, vejo mulheres conversando e se cumprimentando, de volta e prontas para seguir seu dia após a oração.
Encontram as amigas, levam as filhas ou netas e socializam.
Um hábito que já não faz mais parte da rotina; faz parte delas.

Eu acho que o que minha breve passagem pelo Marrocos, esse país tão diverso, me mostrou foi o que sustenta a ordem invisível de uma comunidade. Tradição, trabalho manual, religião, negociação, pertencimento e orgulho, foram algumas das quais pude observar.

A segunda lei da termodinâmica diz que o grau de desordem de um sistema é sempre crescente. O universo tende ao caos.

E, no meio do caos, o Marrocos se mostra como uma caixinha de surpresa, tal qual a beleza dos riads escondidos por trás das paredes milenares da medina.

A sincronicidade garante que cada coisa encontre o seu lugar.
Certas coisas não precisam ser otimizadas.

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