13-03-2023
A ida até Boipeba foi cansativa e inesperadamente enjoativa, apesar de ter sido toda por terra. Não lembro exatamente quanto tempo de viagem foi, mas o balanço na caçamba da pick-up parecia interminável.
Depois de carregar a malinha vermelha por uma longa faixa de areia e mais uma ladeira, cheguei na pequena pousada. Quarto individual dessa vez.
A vista do O Ceu de Boipeba é realmente especial. E rodeada de casais, eu era a única sozinha ali. Mas sem me sentir só, eu estava feliz, tomando meu drink tropical sabor Bahia.
O dia seguinte era novamente dia de praia! Olha só, quem diria. A caminhada de Cueira até Bainema leva cerca de 1 hora, e eu poderia até falar que não tem como se perder, porque é só seguir o litoral.
Mas eu sou eu. E eu me perdi.
Andando pela faixa de areia toda vida com a maré baixíssima, eu me distanciei da real faixa de areia (a que sobra quando a mar sobe) e segui por fora na travessia entre Moreré e Bainema.
Quando me dei conta, eu estava no meio dos arrecifes. A água batia no tornozelo, mas entre lama do mangue, guaiamuns e ouriços, eu não sabia se era melhor ficar descalça ou de Havaianas.
Cai uma vez e ralei meu joelho, segui focada em me tirar dali. Eu estava no meio do caminho e não sabia se era melhor voltar ou continuar, mas de longe eu já avistava Bainema. Haviam crianças e eu me perguntava se elas fizeram esse mesmo caminho. Duvido. Olhei ao redor e não havia ninguém em volta.
Foi a primeira vez que me senti realmente sozinha e com medo nessa viagem. Eu repetia na minha cabeça que eu ia me tirar dali.
Ao mesmo tempo a situação parecia meio ridícula porque a água realmente estava muito baixa, mas as marolas que batiam no meu tornozelo eram suficientes para me desequilibrar de cima das pedras pontiagudas que eu tentava me manter.
Cai mais uma vez e meu pé encostou em um ouriço, mas só percebi depois quando finalmente cheguei em Bainema e senti meus dedos latejarem. Como era uma praia totalmente deserta de bares e restaurantes, fui logo perguntando para a família que eu avistei qual era o caminho de volta.
E com dor no pé, cansada e irritada, eu tratei de retornar para Moreré pelo caminho certo dessa vez: uma faixa larga de terra batida (:
Parei no primeiro barzinho que vi e pedi uma cerveja de 600ml. Tomei um copo antes de pensar como eu ia tirar os espinhos de mim.
Como uma mulher viajando sozinha lembrei do meu kit primeiros socorros que sempre levo comigo. Álcool (além da cerveja), curativo, estilete e Nebacetim foram suficientes para remover os 4 espinhos de ouriço do meu pé. Dada as devidas proporções me senti o cara do filme 127 horas.
No momento que os espinhos saíram, senti meu dia melhorar 200%, eu estava finalmente pronta para aproveitar essa praia.
Já era mais do que o horário de almoço e em um dos únicos restaurantes ainda abertos eu perguntei se ainda havia comida.
A cozinha era uma barraca de madeira no meio de um quintal com mesas e cadeiras rústicas também de madeira. André, o chefe, olhou para mim, abriu a geladeira, encarou seu interior por 2 segundos e me respondeu “eu vou preparar algo para você”.
Eu não fazia idéia do que viria, e tive aqui mais uma prova de como essa sentença pode ser libertadora. O almoço estava maravilhoso, e eu não precisei escolher nada.
Depois de comer dei um mergulho no mar de Moreré e agradeci por estar ali.
A volta para a Vila de Boipeba foi de trator, chega de aventuras por hoje!
O meu último dia útil de viagem acordou chovendo, e nos meus planos estava conhecer Castelhanos. O plano original era fazer o mesmo caminho do dia anterior, mas quando chegasse em Bainema pegar um barquinho para atravessar o mangue até lá.
Em vez disso, paguei um 4×4 para me levar direto.
Mas é claro que antes de chegar ao paraíso ia ter perrengue.
Tomando chuva na cara, com um capacete de isopor e quicando no assento traseiro do quadriciclo, fui o caminho de 40 minutos papeando com Marquinhos, o motorista. No caminho ele ia catando guaiamum para preparar pro jantar dele, feliz da vida e agradecendo aos céus por eu ter aparecido e fechado aquele transfer com ele.
Cheguei e eu era a única pessoa na única barraca aberta da praia, comi pastel de lagosta da região, com queijo e banana da terra. Aii, a Bahia…
Como eu esperava, o tempo começou a abrir, ele sempre abre, e a beleza de Castelhanos se fez ainda mais presente. Um canto super preservado (que aliás estava lutando para resistir a construção de um grande empreendimento turístico) onde a lagoa do mangue se junta com o mar.
Caminhei pela exteeensa faixa de areia da praia paradisíaca e voltei à barraca no horário combinado com Marquinhos para me buscar. Bem a tempo de uma nova chuva cair e o caminho da volta ser tão molhado quanto o da ida. E de fazer o meu celular pifar um dia antes de eu fazer todo o trajeto de retorno para casa.
15/03/2023
Dois dias depois, escrevo neste caderno dentro do avião de volta para o Rio.
Além do bronzeado, já não sou exatamente a mesma que embarcou há duas semanas com a malinha vermelha.
Me permito questionar o modo que tenho vivido, e que deixar os planos em aberto me permitiu vivenciar o inesperado.
Aprendi, sobretudo, a ser o meu próprio porto seguro. Tenho a mim mesma para me proteger, fornecer conforto, me guiar e seguir de exemplo.
Minha primeira viagem sozinha me ensinou sobre ouvir minha intuição, confiar e ter coragem para sair do lugar e conhecer o novo. Vi outras mulheres fazendo o mesmo, cada uma com sua história, profissão e caminho. E de algum modo os nossos se cruzaram e isso me inspira a continuar. É bom saber que não estamos sós.
De alguma forma, viajar sozinha bagunçou a química do meu cérebro. E eu não faço questão nenhuma de organizá-la de volta.