Em um dia desses, logo que me mudei para a Bélgica, eu estava conversando com uma moça daqui, em cima de sua mesa havia um livro e por curiosidade desviei o olhar da conversa para ler o título. Era Clarice Lispector. E em um ato reflexo, apontei para ele e disse: você sabia que ela é brasileira? (tudo bem que ela é na verdade nascida na Ucrânia).
Bem, a moça em questão não sabia, e parte de mim se arrependeu de trazer aquela informação, pois eu, como brasileira, não teria mais repertório para falar de seus livros, já que, eu mesma, nunca os lera.
Pois então, li meu primeiro livro de Clarice Lispector, não antes de pesquisar qual leitura seria mais fácil de começar. Confesso que dentro de minha cabeça havia a crença de que para ler e compreender Clarice eu deveria primeiro merecer. Ser culta, dedicada e entusiasta da literatura.
Spoiler: eu consegui, não existe pré requisitos e o resultado tá aqui. Pega seu cafézinho e vem ler o que achei de A Hora da Estrela.
O livro traz um estilo de escrita bem diferente do que eu estava acostumada e, como foi meu primeiro contato com a Clarice, fiquei completamente deslumbrada.
O narrador utiliza metalinguagem, trazendo a consciência do ato de escrever enquanto escreve, quase como um fluxo livre de pensamento. Tudo o que vem à mente parece ganhar forma nas palavras. Isso tornou a leitura, desde o início, muito interessante e íntima para mim.
“Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo.”
O livro consegue capturar com muita sutileza aspectos profundos da experiência humana e, nesse caso, da existência de Macabéa, a personagem principal. Achei muito bonito como Clarice consegue traduzir a humanidade de alguém que simplesmente é. Macabéa não parece possuir uma grande consciência de si mesma nem uma vida interior elaborada, mas ainda assim existe, sente, deseja e ocupa um lugar no mundo.
“Essa moça não sabia que ela era o que era […] . Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era.”
Existe um contraste muito forte na forma como essa história é contada: a delicadeza com que Clarice observa sua personagem e a brutalidade honesta daquilo que significa ser invisível, viver à margem e atravessar a vida sem compreender plenamente a própria condição.
E como nós, seres humanos, tão frágeis e mortais, podemos viver a vida no simples ato de existir. Algo que pode parecer pouco, mas que, ao mesmo tempo, contém tudo: a possibilidade de sentir, de desejar, de sofrer e de estar no mundo. Talvez seja justamente nesse espaço entre existir e compreender a própria existência que o livro encontra sua força.
“As coisas são sempre vésperas e se ela não morre agora está como nós na véspera de morrer […] .”
Não quero dar muitos detalhes, justamente para que você, que ainda vai ler, possa se surpreender. Mas o uso constante de figuras de linguagem e das reflexões do narrador consegue cumprir muito bem esse papel.
“Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não.”
“Ria por não ter se lembrado de chorar.”
Uma parte que me tocou e com a qual me identifiquei muito é a questão da consciência de se encontrar consigo mesma. Como admiradora de solo dates e de tempo de qualidade sozinha, reconheço essa sensação de estar presente para mim mesma e perceber que isso é algo pertencente à condição humana, e não uma experiência isolada (aliás, quase nenhuma é).
A leitura pode parecer estranha no início, para mim também foi, mas, aos poucos, fui tentando me envolver, seguir o fluxo e simplesmente aceitar o que viria. Assim como Macabéa.
“[…] ela teve pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão. Tinha um quarto só para ela. Mal acreditava que usufruía o espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem […] . Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! Usufruía de tudo, da arduamente conseguida solidão, do rádio de pilha tocando o mais alto possível, da vastidão do quarto sem as Marias. Arrumou, como pedido de favor, um pouco de café solúvel com a dona dos quartos, e, ainda como favor, pediu-lhe água fervendo, tomou tudo se lambendo e diante do espelho para nada perder de si mesma. Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia. Acho que nunca fui tão contente na vida, pensou. Não devia nada a ninguém e ninguém lhe devia nada.”
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