12-03-2023
Hoje, infelizmente, é meu último dia de viagem. Mas alguém tem que voltar a trabalhar e pagar as contas.
A última semana, desde que saí da calmaria do interior da Bahia, foi intensa!
Cheguei mareada e um tanto quanto mal-humorada após pegar a barca que faz a travessia de Salvador a Morro de São Paulo. Quanta gente! Que calor! E que dificuldade para desembarcar em meio a tantas malas, pessoas e balanço.
Definitivamente, tomarei o remédio para enjoo na volta.
Bufei ao colocar os pés em terra firme encarando o que seria o próximo desafio: subir a ladeira puxando a malinha vermelha.
Para quem nunca tinha ficado em um hostel antes, a primeira impressão não foi das melhores: havia roupas, toalhas e itens pessoais espalhados pelo quarto. No alto da minha irritação, resolvi tirar um cochilo (na minha opinião a melhor solução para qualquer tipo de problema) no quarto geladíssimo em contraste com o clima lá fora, na companhia de um novo colega de quarto não muito simpático.
Renovada depois de acordar, fui bater perna e assim que avistei a praia 2 me perguntei se seria ali uma festa universitária. O tunti tunti sobressaia o som das ondas do mar, e igualmante um mar de pessoas jovens, bonitas e saradas jogando altinha. Me questionei de novo se, na verdade, eu não estava de volta à praia do Leme num sábado de verão.
Para quem acabara de voltar do interior, só naquela praia parecia ter mais gente do que em todo o Vale do Capão.
Eu, sinceramente, não tinha bateria social para aquilo ali.
Mas vamos lá, né. Pisou na merda, abre os dedos. E abri o bloco de notas para fazer o roteiro dos próximos dias. O que seria o quarto e último dia escrevi com certa impaciência: IR EMBORA. Na nota mental também estava escrito: nunca mais ficar em hostel.
Enquanto todos pareciam se conhecer e conversar por tudo que é canto da hospedagem, eu observava de longe o movimento. Tipo quando esperamos de pé na areia o momento certo entre as ondas para entrar de uma vez no mar.
Até que eu mergulhei, até literalmente, com tudo em Morro de São Paulo.
No primeiro dia aluguei uma bike na beira da praia e pedalei pela faixa de areia até chegar à quinta praia. No destino, um banho de mar para se refrescar, certo?
Errado, o sol estava a pino e quando procurei uma água para me refrescar, só consegui ficar zonza. O mar me pareceu uma panela de pressão e, contando com meu despreparo, me senti um tanto quanto desidratada e sem sombra à vista para descansar.
A volta foi tão sofrida que eu só queria uma porra de uma sombra, que só estavam nos restaurantes e bares superfaturados à beira da praia.
Tive a impressão de que se eu pegasse mais um minuto de sol na cabeça eu ia desmaiar, então me obriguei a parar em algum deles e comer alguma coisa antes de voltar para o hostel.
Sentei em um sofá que no dia anterior vi pessoas conversando, e ali cochilei até a hora de ver o pôr do sol no mirante.
E como eu ainda queria sentir um refresco naquele lugar de clima e água quente, eu fui para a praia em seguida, à noite. Agora sim, entrei na água e me ajeitei na canga para ler um livro, aproveitando a praia menos badalada nesse horário.
Olho para o horizonte e me deparo com uma bola laranja subindo despretensiosamente do mar.
Isso é a lua?
Caralho! É a lua cheia!
E ali fiquei finalmente tomando meu banho de lua, depois de tanto sol no coco.
Voltei exausta pro hostel, mas extremamente grata pela feliz surpresa que a lua me deu. Sempre ela.
Após o banho puxei conversa com uma menina do quarto e descobri que ela era de Roraima e estava indo embora no dia seguinte, mas me chamou para jantar com mais uma menina que conheceu na sua viagem. De 3 viramos 8 mulheres tomando sorvete na sorveteria da Ribeira e conversando como se nos conhecêssemos há tempos.
Ali, na minha primeira viagem sozinha, e sendo mulher, foi uma ficha caindo de que não estava sozinha de forma alguma, na verdade. Somos muitas! E tantas quanto forem os espaços que temos a ocupar, as experiências que temos a viver e compartilhar juntas.
Eu sabia que precisava acordar cedo no dia seguinte, mas não me importei em ficar até tarde ali conversando, já troquei noites de sono por coisa muito pior.
Acordei em cima da hora para o mergulho que eu havia marcado. Engoli o café da manhã e ainda meio grogue, descabelada e com a cara amassada, saí ladeira abaixo para o ponto marcado.
Me surpreendi ao encontrar 3 meninas do dia anterior também esperando pelo mergulho!
Ah, as sincronicidades das viagens…
Enquanto conversávamos, vi de relance uma pessoa passar com roupa de mergulho por trás de nós, inconscientemente fixei meus olhos nela descaradamente. Nossos olhares se cruzaram e eu desviei disfarçando.
O mergulho aconteceu e pude colocar mais uma nova experiência para a conta. Senti uma paz lá embaixo, só escutava a minha respiração pelo som das bolhas subindo. Em algum momento, por curiosidade, quis ver o quão fundo estava e olhei para cima. Não posso me considerar uma pessoa com medo de altura, mas o oposto não é verdade.
O que me assustou foi a profundidade!
Uma sensação de ansiedade quis me possuir. Olhar de outra perspectiva a tensão superficial da água assim de longe parecia um portal para outra dimensão. Só que eu já o havia atravessado e estava nesse outro mundo. Onde eu podia “voar”, respirar em uma nova atmosfera e conhecer criaturas nunca antes vistas assim tão de perto (vivas e vibrantes), por mim: corais, peixes, polvo e enguias.
Depois de almoçar com as meninas e organizarmos nossa ida à festa no Teatro do Morro mais tarde, fomos na tirolesa.
Juro, não podia ficar melhor. Como esse lugar pode ser tão divertido???
A essa altura eu já estava entregue a Morro de São Paulo.
E, na beira de me jogar do precipício, eu nem hesitei. Como eu disse, altura não é o problema, mas a falta de gravidade quando os pés não tocaram mais o chão me deu frio na barriga. E a queda foi no mar.
Nadando eu voltei para a beira, mas uma das meninas que mergulhou comigo e despencou da tirolesa também no mar, pasmem, fez tudo isso sem saber nadar! E admirei mais uma vez a coragem feminina, dessa vez não a minha. Ela foi levada até a beira por uma pessoa que a aguardava lá embaixo.
Ali, estirada na espreguiçadeira na praia 1, conversando com as amizades recém-feitas, embaixo do sol da Bahia, eu agradeci por ter me trazido até ali. Eu comprei as passagens e superei medos e bloqueios. A vida garantiu o resto.
À noite, a galera do hostel se juntou e o happy hour de caipirinha 2 por 1 fez todo mundo se entrosar rapidinho. Quem não ia para a festa decidiu comprar ingresso em cima da hora (me questiono se isso não deve ser um esquema de pirâmide). Uma hora da manhã éramos umas 20 pessoas andando em direção à praia 2 para pegar o 4×4 que nos levaria ao destino desconhecido.
O caminho de cerca de 30 minutos era de estrada de terra, e eu não devo ter parado de rir um minuto. O motorista corria com emoção, ao redor um breu em que não víamos nada além de outros 4×4 com as outras pessoas indo para o mesmo lugar. Duas gringas que estavam conosco achando que aquilo era normal no Brasil e a gente fazendo piada sobre achar que seríamos sequestrados.
Assim que chegamos, não esperamos para ir até a pista de dança embaixo do céu estrelado.
Nossa, como eu precisava dançar. E como eu precisava de uma noite assim.
Há tempos não conseguia me divertir em festas porque não sentia que eu tinha um motivo para comemorar.
Naquela noite, porém, senti que eu tinha todos os possíveis para tal: a liberdade, a viagem, o fato de eu poder estar me proporcionando aquilo tudo, as novas amizades, estar longe de casa, a loucura e, o principal deles, a falta de controle.
Eu brindo à falta de controle das coisas.
Realizar que eu não preciso ter o controle de tudo é incrível e libertador. Quase como um grito, um desabafo.
Fui dormir às 5h da manhã e dessa vez fui eu a inconveniente entrando no quarto compartilhado de madrugada.
Acordei e ainda era o dia 3. Que delícia! Viajar parece um vórtice. Quanta coisa vivenciei em 2 dias. Se fossem dias comuns, eu ainda teria mais 3 dias “úteis” pela frente. Isso sim, pra mim, é otimização.
A essa altura eu já não estava mais sozinha em Morro. Aqui ficou claro para mim a lição que levaria para o resto das minhas próximas aventuras: viajar sozinha não significa estar sozinha.
A praia da Gamboa me teletransportou para a viagem de carro que fiz com meus pais no sul da Bahia há cerca de 20 anos atrás. Agora eu estava igualmente me sujando e gargalhando coberta de argila. Não sobrou nem para o cabelo, virei monocromática, mas de pele macia pelo menos.
E, em tempos de viagem para a praia, posso dizer que esse foi meu banho premium, com máscara de argila e água salgada, antes de ir para um date com aquela pessoa do mergulho, sotaque baiano e incontáveis tatuagens. A grande vantagem é que aqui é fácil escolher o lugar: praia 1, 2, 3 ou 4?
Já dentro da água, o fim da tarde na praia 3 parecia um filme: o céu, o mar, o beijo. E assim, tão de perto, no balanço do mar, eu aceitei o convite para o jantar e um tour pela ilha.
O dia seguinte era o quarto do roteiro, e ali demarcava no meu bloco o lembrete de ir embora. Depois de fazer o checkout no hostel e me despedir das pessoas que lá conheci, eu ainda tinha um tempo antes do transporte para Boipeba.
Decidi ir passar pelo forte para ver como era a vista de dia. Na noite anterior, depois do jantar, fomos andando até lá. A lua brilhava forte sobre o mar e só tinha a gente ali. Na beira do muro nos sentamos e ficamos um tempo sem falar nada, só sentindo o vento forte de maresia nos atravessar.
Só de short, camiseta e chinelo, Morro de São Paulo me permitiu conhecer sua outra face: vazia, silenciosa e fresca.
Obrigada, Morro.